A seção pet cresce, a equipe percebe mais pacotes saindo e a primeira vontade é abrir espaço na gôndola. Só que aumentar o mix sem olhar o cupom pode trocar uma ruptura por encalhe. No supermercado, tendência de mercado é sinal para investigar, não ordem de compra.
O movimento mais recente merece atenção. Segundo levantamento da Scanntech publicado pela SuperVarejo em 15 de outubro de 2026, a alimentação para gatos passou de 28,4% para 31% das vendas da cesta pet no acumulado do ano. No mesmo período, a participação da alimentação para cães recuou de 56,2% para 54,1%.[1]
A notícia não diz que toda loja deve reduzir ração para cães. Ela diz algo mais útil: o comportamento dentro da categoria está mudando e o seu PDV precisa mostrar se essa mudança também chegou à sua praça.
O número nacional abre a pergunta. O cupom da loja dá a resposta
O dado setorial ajuda a enxergar o movimento, mas não conhece o tamanho da sua seção, o perfil do bairro, a renda da praça nem a frequência dos seus clientes. A decisão começa quando a loja separa faturamento, unidades, margem e giro por espécie, tipo de produto e faixa de preço.
A diferença entre faturamento e quantidade importa. A SuperVarejo informou que a ração seca para gatos cresceu 12,4% em faturamento e 14,6% em unidades. A ração úmida avançou 11,9% em faturamento e 9,9% em unidades. Já os petiscos subiram 26,1% em faturamento e 23,1% em unidades, ampliando a participação de 1,8% para 2,2% das vendas pet.[1]
Essa abertura evita uma leitura preguiçosa do tipo: pet está crescendo, então vamos comprar mais de tudo. Nem tudo avançou. Dados do mesmo levantamento, também apresentados pelo Mercado&Consumo em 13 de outubro de 2026, mostram queda de 10,9% no faturamento e de 13,6% nas unidades de acessórios. Produtos para banho recuaram 4,4% em faturamento e 9,9% em unidades.[2]
O recado para o supermercadista é claro: a categoria não anda em bloco. Cada subcategoria conta uma história diferente.
Antes de ampliar o mix, procure quatro sinais na operação
Primeiro, veja se há ruptura nos itens que já giram. Se a ração úmida some da prateleira todo sábado, trazer vinte novos sabores não resolve a falha de reposição. Pode até escondê-la por alguns dias.
Segundo, compare unidades vendidas e margem. Um item pode faturar mais porque ficou mais caro, sem ganhar volume. Outro pode vender mais unidades e ainda entregar pouco resultado por causa da negociação, da perda ou do espaço ocupado.
Terceiro, observe a cesta. O cliente que compra ração para gatos também leva areia, petisco, sachê ou apenas um item de emergência? Essa combinação mostra missões de compra e ajuda a montar exposição, estoque e comunicação com mais contexto.
Quarto, acompanhe a recompra. Ração e areia não são compras isoladas. Elas criam uma janela provável de retorno. Quando o cliente se identifica no caixa, a loja consegue medir o intervalo entre compras e perceber quem atrasou a volta. É aqui que um clube de vantagem bem operado deixa de ser desconto e vira gestão de recorrência.
A gôndola pet pode revelar mais do que preferência por produto
Quando o CPF está ligado ao cupom, a análise muda de nível. A loja deixa de ver apenas que vendeu cem unidades e passa a enxergar quantos clientes compraram, quantos voltaram, quais itens combinaram e quais deixaram de aparecer na cesta.
Isso permite criar segmentos úteis. Um grupo compra ração seca todo mês. Outro alterna ração seca e úmida. Um terceiro começou com petiscos, mas ainda não comprou itens recorrentes. Esses padrões não servem para adivinhar a vida do cliente. Servem para organizar decisões com base no comportamento registrado na própria loja.
A comunicação também melhora. Em vez de mandar a mesma oferta pet para toda a base, o supermercado pode falar com quem já demonstrou interesse na categoria, respeitando consentimento e frequência. O objetivo não é disparar mais. É ser mais relevante e medir se a mensagem trouxe retorno.
O erro caro é confundir tendência com autorização para estocar
Há quatro atalhos que parecem rápidos e costumam criar trabalho depois:
- copiar o mix de uma rede grande sem comparar espaço, praça e giro;
- aumentar a compra porque uma categoria cresceu no mercado nacional;
- olhar apenas faturamento e ignorar unidades, margem e ruptura;
- criar promoção para toda a base sem saber quem compra pet e quando volta.
O jeito antigo começa pela negociação e termina torcendo para a ponta vender. A gestão começa pela pergunta certa: qual demanda já aparece no caixa, onde ela está crescendo e o que falta para transformar compra ocasional em recorrência saudável?
Um teste pequeno vale mais que uma aposta grande
Amanhã, escolha uma subcategoria pet e extraia as últimas semanas de venda por SKU. Separe faturamento, unidades, margem, dias sem estoque e número de clientes identificados. Depois, selecione poucos itens para um teste com prazo definido.
Durante o teste, acompanhe três coisas: se houve venda incremental, se algum item antigo perdeu giro e se os compradores voltaram. Evite celebrar apenas a saída inicial. Produto novo pode vender por curiosidade e parar logo depois. O que interessa é a sustentação do giro sem destruir margem nem ocupar espaço improdutivo.
Esse trabalho não precisa virar mais uma planilha esquecida no escritório. A Coffart opera a leitura do dado real da loja, transforma comportamento de compra em segmentos e conecta comunicação, clube e recorrência. O supermercadista continua no comando da decisão. O dado tira o achismo do caminho.
O movimento pet é uma oportunidade de gestão
A alta dos produtos para gatos oferece um bom gancho, mas a oportunidade não está em seguir a manchete. Está em usar a manchete para fazer perguntas melhores ao próprio caixa.
Se a procura cresceu na sua loja, ajuste reposição, mix e comunicação com método. Se não cresceu, não force uma tendência nacional sobre uma praça que se comporta de outro jeito. Marketing é gestão justamente por isso: menos aposta no escuro, mais decisão que pode ser medida.
