Feriado é o dia que o dono de supermercado mais odeia não estar aberto e mais teme estar aberto sem saber o que vai acontecer.
O movimento pode dobrar. Pode também esvaziar. Depende da praça, do perfil do seu frequês e, principalmente, de ter ou não uma estratégia montada antes de ligar as luzes.
Até ontem, a questão jurídica complicava ainda mais: uma portaria do governo exigia acordo ou convenção coletiva com os trabalhadores para qualquer loja do setor funcionar em feriado. Quem abrisse sem isso corria risco de autuação.
Agora mudou. A 4ª Turma do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região) suspendeu provisoriamente os efeitos dessas portarias para supermercados, mercados e hipermercados. A decisão saiu em 24 de setembro de 2026, em recurso apresentado pela Abras (Associação Brasileira de Supermercados), que argumentou que a restrição não era justificada tecnicamente e tratava o setor de forma diferente de outros comércios (fonte: Giro News, 24/09/2026, com base em informações da Folha de S. Paulo).
A decisão ainda pode ser revista. Mas ela já remove o principal travamento legal que muitos donos usavam como desculpa para não planejar o feriado.
Agora não tem mais essa.
O que mudou na prática
Antes da decisão, abrir no feriado sem acordo coletivo gerava insegurança jurídica: risco de multa, reclamação trabalhista, fiscalização. Muitos donos simplesmente fechavam para evitar o problema.
Com a liminar, o setor voltou à situação anterior: a lei que regulamenta trabalho em feriados no comércio, no entendimento do tribunal, já autorizava supermercados. A portaria que mudou isso está suspensa.
Isso não significa abrir sem planejamento trabalhista. Pagar corretamente, comunicar a equipe, organizar escala, respeitar folga: tudo isso ainda é obrigação sua. O que mudou foi o obstáculo que impedia a decisão de abrir ou fechar.
Feriado é oportunidade ou risco?
Depende de um fator: você conhece o comportamento do seu frequês no feriado?
Tem praça onde o movimento vai para churrasco, para o litoral, para a casa do parente. A loja esvazia. Abrir custa mais do que vende.
Tem praça onde o feriado é o dia de maior movimento do mês. Família em casa, almoço especial, mais tempo para caminhar pelo corredor com calma.
O problema é que a maioria dos supermercadistas decide se abre ou fecha no feriado no feeling. E feeling sem dado é achismo com custo.
Se você tem CRM, tem a resposta. Basta olhar o histórico de vendas nos últimos três feriados: ticket médio, setores mais vendidos, horário de pico, frequência de clientes identificados versus anônimos. Esse dado já existe no seu sistema. Você só precisa olhar.
Se você ainda não tem esse dado, tudo bem. O próximo feriado pode ser o primeiro que você vai monitorar de verdade. Registra CPF na entrada, mede por hora, vê o que vendeu no açougue, no hortifrúti, na padaria. Esse histórico vale mais do que qualquer pesquisa de mercado genérica.
Como transformar feriado em pico de faturamento
1. Decide com dado, não com intuição
Puxe o relatório dos últimos feriados: qual setor performou mais, qual horário teve mais movimento, qual perfil de cliente apareceu. Com isso, você já sabe se vale abrir, com qual equipe e com qual oferta.
2. Cria oferta para o contexto do dia, não oferta genérica
Feriado nacional tem contexto. Dia das Crianças tem comportamento diferente de Finados. Padaria e confeitaria vendem diferente em cada data. Açougue e hortifrúti têm picos distintos dependendo da região e do dia da semana.
Oferta sem contexto é desconto que não puxou ninguém. Oferta com contexto é comunicação que faz sentido com o que o cliente está vivendo naquele dia.
3. Comunica antes, não no dia
Se você vai abrir, avisa. WhatsApp, vitrine, Google Meu Negócio com horário atualizado. O cliente que não sabe que você está aberto não vai aparecer. Simples assim.
Se você tem base no clube de vantagens, dispara uma mensagem na véspera para quem comprou nos últimos 30 dias. Segmentado, com oferta relevante, no horário certo. Isso é o que separa o movimento de quem planejou do movimento aleatório.
4. Prepara a equipe antes de abrir a porta
Equipe sem briefing no feriado vira caos no caixa. Escala definida, setores com responsável, oferta comunicada internamente, critério claro de prioridade de atendimento. Cinco minutos de alinhamento antes de abrir valem horas de confusão depois.
5. Mede o resultado e registra
Depois do feriado, olha o número: o que vendeu mais do que a quinta-feira comum? O que decepcionou? Qual oferta puxou mais CPF identificado? Esse registro vira o plano do próximo feriado. Em dois ou três feriados, você já tem um padrão e não precisa mais adivinhar.
Erros comuns que viram prejuízo no feriado
Abrir sem equipe suficiente. Caixa lento, cliente irritado, carrinho cheio que vai embora. Feriado com movimento e sem equipe vira problema de reputação.
Deixar o estoque igual ao de uma terça comum. Se o açougue vai bombar, a carne tem que estar lá. Ruptura no feriado é pior do que ruptura em dia normal porque o cliente não tem para onde ir.
Não comunicar o horário de funcionamento. Cliente que chega na porta fechada no horário errado não volta no mesmo dia. E às vezes não volta no mês.
Fazer liquidação sem critério. Desconto generalizado no feriado queima margem sem necessariamente puxar os clientes certos. Desconto com dado, para quem ainda não veio naquele mês, é diferente.
O que fazer agora
Se o próximo feriado for em menos de duas semanas, você tem tempo de fazer o básico certo:
- Olha o histórico dos últimos dois feriados no seu sistema (mesmo que seja só o caixa).
- Decide se abre e com qual equipe mínima.
- Monta uma oferta para o contexto do dia, com foco no setor de maior giro histórico.
- Atualiza horário de funcionamento no Google Meu Negócio e avisa a base de WhatsApp.
- Passa o briefing para a equipe na véspera.
Se quiser ir além, usa os dados do seu clube para segmentar quem ainda não veio no mês e dispara uma comunicação específica. Isso é CRM aplicado no mundo real: veja como o clube funciona como motor de recorrência.
Feriado não é sorte. É planejamento com dado. A decisão do TRF-3 tirou a desculpa jurídica. Agora o que vai separar quem fatura de quem fecha por medo é exatamente isso: quem conhece o próprio frequês e quem ainda está no chute.
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Fonte: Giro News, 24 de setembro de 2026 (acesse a matéria), com base em informações da Folha de S. Paulo.